sexta-feira, 20 de novembro de 2015

OS ÚLTIMOS DIAS DE J. J. BASTOS - conto


Nem para os grandes talentos da literatura, a primeira publicação impressa de qualquer material nunca foi fácil. Imaginemos assim os textos de um desconhecido amante da escrita, ou então daqueles novatos que por uma razão ou outra gostam de escrever.  Atte:  j.borges

     

          
                   OS ÚLTIMOS DIAS DE J. J. BASTOS
                                                                                                                                                CONTO
A conversa agradava a todos, apesar dos pesares, apesar do momento que parecia propício à tristeza. Alguns presentes criavam coragem e se despiam dos preconceitos há muito tempo guardados; chegavam a se abrir sobre sentimentos que lhe eram íntimos, caros, que ainda não se animaram a compartilhar com ninguém. J.J. Bastos escutava com atenção, mas continuava calado, embora como bom ouvinte, fixava os olhos naquele que falava e sempre meneava a cabeça em sinal de concordância, mesmo quando lhe parecesse absurdo partes daquilo que ouvia. Quem começou primeiro a contar sua história, num desabafo de amigo para amigos, foi o Liodoro. Já contava com setenta e oito anos e não mais encontrava razão para viver, embora tivesse buscado tais razões e explicações nos livros de filosofia, nos livros sagrados ou mesmo ouvindo palestras de supostos sábios. Destes supostos sábios que sempre apareciam para tentar lhe meter goela abaixo diferentes convicções ou opiniões, que nem eles mesmos acreditavam. Juventude, velhice, vida e morte não se explicam, falava. Era ele, Liodoro, como todos diziam, um eterno inconformado.
        Ziquinha da Ana tomou coragem e quando a pausa começou e o silêncio caiu, ele iniciou sua fala, num desabafo de tudo o que lhe importunava, principalmente as mágoas recolhidas de seus sonhos irrealizados, esfumaçados e diluídos pelas desilusões de sua vida— que agora pensava— estava perto do fim. Já tinha vivido mais de setenta e cinco anos. Falou da ingratidão dos amigos, principalmente seus filhos, criados no conforto da sua labuta, razão de tudo porque lutara.  Era em pró da família que trabalhara de sol a sol, embora o que lhe restava agora era a solidão, depois que sua querida esposa Manuela faleceu. Não, não podia entender a insensibilidade daqueles que criou, por quem lutou, e que agora só pensavam na herança. Mas teriam que esperar, pois mesmo que estivesse muito chateado com a vida que levava, não pensava em morrer depressa, pelo menos por enquanto. Num meio sorriso, com muita ironia, disse que só depois de seu enterro pegariam algo, e talvez, mesmo assim, antes de bater as botas ele poderia fazer um testamento ou inventário deixando sua fortuna ou parte dela para uma instituição filantrópica. Ou mesmo, quem sabe, dar qualquer coisa para alguma belezura que com muita lábia conseguisse enganá-lo e conquistasse seu já sensível e cansado coração. Enquanto estivesse vivo, tudo era possível, — terminou ele sarcástico e ainda mais irônico. Deu outro meio sorriso, agora humorado e menos triste. Parecia mais contente e menos amargurado por haver compartilhado seu estado de espírito. Seus pensamentos, que antes o deixavam embaraçado e quase nunca lhe davam tréguas, depois de desabafar lhe trouxeram certo conformismo e tranquilidade. Sentiu a satisfação e a calma deixadas por uma ansiedade que se foi. Sua louca vontade de compartilhar seus problemas com alguém estava enfim, satisfeita. Foi além e tocou fundo, pensou ele, após falar do enfado com seus familiares, parentes e amigos mais chegados, todos ingratos, que somente lhe procuravam em busca de favores.
                                                


                                                     02
     Antônio Silva, outro amigo presente, continuava calado e não fazia menção de falar. Somente ouvia, mas a sós com alguém, gostava de contar sua vida, relembrar seu passado, o que lhe trazia grandes saudades, dizia. De quase oitenta anos, se sentia um homem realizado. Sempre dissera aos amigos que tudo na vida lhe correra bem; os negócios, a família unida, os filhos e netos amorosos. Pensava que o mundo era um lugar muito bom pra se viver, e não queria imaginar outra vida que não fosse aquela sua, tão bem vivida. A esposa Carminda era uma adorável mulher que lhe comprazia em tudo, ou quase tudo, às vezes até lhe adivinhava os pensamentos.
     Contudo, ela — nunca percebera ele — influenciava totalmente a família, decidindo qualquer assunto importante ou não, que se referisse à vida de todos à sua volta. Enfim, Antônio e os familiares viviam sobre o regime matriarcal e queriam segurança, e embora inconscientemente por isso não gozassem de uma vida com liberdade própria, era plena de satisfações. Satisfações passageiras e insignificantes, muito efêmeras, mas satisfações.
Mas dona Carminda não era feliz, nunca se sentira feliz, confessava às amigas mais íntimas. Porém, enfrentara com bravura e sabedoria os infortúnios da vida, buscando sempre sua liberdade interior, que sempre lhe parecera distante, apesar de tudo. Desde que tomou aquela decisão de viver um romance proibido do qual nunca conseguira se desvencilhar — tão forte que nunca pensara nisso, porque era uma prisão da qual inconscientemente nunca desejara sair e se libertar — a vida lhe seria indiferente, quase sem doce, embora ela nunca aceitasse e lutasse para sobressair em outros aspectos de sua vida.  Não, ela nunca foi mais a mesma, repensava remoendo seu passado. Contudo, trabalhara e lutara como um burro de carga para sobrelevar sua vida e realizar a vida de outros, muitos outros, seus familiares. Nascera ela numa pobreza que considerava indigna, numa terra onde as classes sociais pareciam se dividir em castas, tal eram as diferentes classificações que tornava muito difícil qualquer indivíduo sem recursos se sobressair. Para realizar algum objetivo, mesmo insignificante, sem muita importância na sociedade, dificilmente alguém o faria se não fosse bem relacionado ou tivesse um parente ou um padrinho rico, que pudesse proteger contra as intempéries do sistema social vigente, tanto educacional quanto econômico.
      Além deles, outros amigos chegaram para visitar Joaquim José Bastos, o JJ Bastos como todos o conheciam. Viúvo de oitenta anos — a completar nos próximos dias — de uma saúde que parecia inabalável, agora estava de repouso e de chegada do hospital, com uma infecção pulmonar que não lhe dava tréguas. Sentados na espaçosa varanda interna, com uma suave brisa no jardim do quintal a refrescar o ambiente, os visitantes se comoviam ao verem uns aos outros, já velhos e sem o vigor de outros tempos. Eram amigos que há muito não se viam por motivo de saúde ou outro qualquer. Porém, eles viveram juntos desde crianças, entrelaçados pelas vicissitudes da vida, naquela pequena cidade que aos poucos foi crescendo, mudando com o tempo. Agora, de novo se encontravam ali, reunidos como nas festas do passado a entreverem o futuro. Futuro bom para alguns mais sonhadores, que ainda esperavam novos e melhores dias. Desilusão para outros e quase todos, cuja esperança
                                                      


                                                         03
ruíra e não mais esperavam muito tempo por viver. Outros que deixaram suas lembranças amarradas a um passado que não voltaria jamais.
Carminda também estava presente, ouvindo a conversa, calada. Não havia espaço para seus lamentos e suas incompreensões femininas, ali, naquele antro de machistas — pensava ela agora como percebeu desde o início, no seu passado distante. Contudo, nem queria lamentar ou desabafar; somente desejava explicar suas atitudes e seus desenganos, na esperança de que alguém a entendesse, compreendesse a pesada carga que a vida lhe impusera e que— pensava ela — pouquíssimos suportariam. Queria falar, gritar até, naquele momento que lhe pareceu tão raro e quase mágico, franco e aberto, e animado pelos amigos presentes. Mas não, não desejava explicar como uma forma de desculpa, mas de libertação, de amostra de ousadia, da sua ousadia. Dizer-lhes como fora sua vida e suas dificuldades até ali, naquele momento. Porque viver sua vida livre como ela viveu, embora enfrentando toda forma de preconceito, — e necessitava que assim fosse — fora viver corajosamente. Principalmente numa pequena cidade de costumes antiquados, atrasados e machistas, cheia de preconceitos e incompreensões. Podia se sentir quase uma heroína, pensou, dentro de um leve e complacente sorriso. Contudo, afinal, não foi tão difícil e quase impossível como lhe parecera no início, na sua juventude. Ademais, ela às vezes se alegrava ao se lembrar do momento em que percebeu que era muito mais forte do que jamais imaginara ser naquele então.
     Queria que a deixassem falar agora, gritar para os presentes e para o mundo suas vitórias e também suas dificuldades, que a muitos homens e mulheres pareciam derrotas. Mas sabia que estes homens e mesmo muitas mulheres jamais a compreenderiam, porque nunca aceitaram o fato dela ter sido livre e aberta, ter vivido sempre disposta a enfrentar o mundo, como as más línguas, o ambiente hostil às mulheres corajosas, insubmissas, donas do próprio nariz. Não se retraía, nem quando às vezes queria ter uma aventura amorosa com quem simpatizasse e a atraísse. Ela não media esforços. Mesmo depois de casada, embora com os disfarces daquele casamento de faz de conta, ela se sentia livre e por isso mesmo, gostava de ser aquela líder  estar por cima em qualquer relação pessoal, sobretudo em sua casa.
       São sacanas os homens, pensava, porque desejam a posse de uma mulher e a possuem quase como os bichos. Depois de usá-la e desonrá-la do ponto de vista masculino — ou mesmo somente com o olhar, o pensar e o falar dos machos sempre sequiosos de prazer — a jogam fora como de um lixo se tratasse, pensava com amargura. Nunca deixara de recordar as frágeis e impotentes mulheres suas conhecidas; estupradas, ultrajadas e deixadas pelos descaminhos da sociedade e da vida, abandonadas à prostituição, sem destino e à margem de um sistema social injusto e preconceituoso. Como sua irmã Dilva, sua prima Tiana e muitas amigas. Mas com ela sempre foi diferente, ahhhh, com Arminda não havia enganação masculina ou machista. Ela aprendeu ainda jovem a se valorizar, se defender, como usar todas as armas da sedução, aproveitando cada momento da sua vida de mulher bonita, mansa como uma pombinha mas maliciosa  como uma serpente. Soube viver com paixão — reconhecia — graças a seu sábio amante e protetor. Sebastião Freitas era um
                                                               


                                                         04
 verdadeiro homem, o homem que brilhou em sua vida e que ela se não o amara de todo coração, com seu coração de mulher, o idolatrava como ser humano.
     Sua primeira experiência de prazer foi com Ricardinho, adolescente como ela, filho de um peão de fazenda que, levado pelo padrinho para a capital, sempre aparecia nas férias da faculdade e gostava de passear e acompanhá-la, de conversar sobre as novidades da cidade grande. Enquanto isso, ele, tão atraente e tão atrevido, não podia ver um recanto ou um tronco de árvore onde pudesse se esconder, ou pelo menos se disfarçar da vista dos outros. Depois, abraçadinho com ela, a beijava sofregamente, lhe dava um amasso e lhe fazia um gostoso carinho com demonstrações de ternura que a fazia delirar. Era um prazer que conhecera e nunca esqueceria. Tinha já um rosto lindo, o corpo ainda se desenvolvendo, mas já mostrando as formas perfeitas, as belas curvas que enlouqueceriam os homens.  Lembrava a muitos uma gostosa e desejosa fruta que aos poucos amadurecia. Enfim, era uma linda menina moça, que não tardou em atrair os olhos de Sebastião Freitas, homem casado, o maior pecuarista da região. Na primeira oportunidade de se encontrarem a sós, ele fez as mais belas e sinceras promessas que um galanteador pode fazer a uma princesa, como ela parecia a ele. Embora homem rude, bem mais velho — podia ser seu avô — era carinhoso e até romântico, além de mão aberta como ela já sabia, tal era a fama do fazendeiro rico entre a mulherada da região. Foi com ele sua primeira noite passada com um homem, e não com Ricardinho como ela desejava. Mas valeu a pena, relembra em uma doce lembrança. A experiência dele se sobrepôs à juventude do rapazinho bonito que não esquecera. Passaram uma noite cheia de surpresas para ela. Depois, sem sua virgindade, apesar de tão importante ainda, ficou contente com a primeira das promessas de Sebastião Freitas sendo cumprida ao pé da letra. Foram para a cidade grande onde se hospedaram em uma casa alugada com antecedência, e dali saíam a passear. Primeiramente para ver as vitrines das melhores lojas de moda feminina, além de muitos passeios em outras lojas comerciais, onde ela comprava presentes para os familiares, principalmente para a mãe, que já sabia e era cúmplice, cega a tudo, e muito contente com o futuro seguro da filha. Afinal, Sebastião Freitas não era bobo, sabendo que Arminda era ainda uma garota de apenas dezesseis anos e ele precisava ter a máxima cautela. Queria conquistar tranquilamente a simpatia e o amor de sua princesa, e calar o bico da família inteira. Ele a queria loucamente, ela seria para sempre sua princesa, mas também queria conservar eternamente sua rainha, pensava ele.
De volta à pequena cidade, que fazer para continuarem juntos? pensavam. A solução ela mesma encontrou: Que tal uma casa como escritório, um local onde pudesse haver um espaço para guardar material, equipamentos e o controle de tudo? Ela como secretária seria perfeito, ninguém desconfiaria, embora também não acreditaria de todo, sabendo da fama do fazendeiro rico e comilão, em lutar e ganhar todas as disputas, principalmente por mulheres. E ela assim, tão linda! Mas e daí? relembra ela num meio sorriso.
     Depois, atrevidamente, pra arrematar, ela namorava e depois se casava com Antônio Silva. Mas todos os filhos tinham a cara do famoso fazendeiro.

                                                      

                                                           05
Por isso, diziam — mexericavam, dizia ela — na cidade que Antônio Silva ganhava salário do grande pecuarista pra morar na casa dela e servir como vigia, fazendo de conta de marido. Para Sebastião de Freitas ela deu a vida, mas também recebeu tudo que dele desejava, como o amante perfeito que zelava por ela. Cuidava de tudo no seu presente e lhe preparava um belo e grandioso futuro. Pela vida da sua princesa como ela parecia a ele, Sebastião se entregava de corpo e alma. Ia até o mais profundo do seu coração apaixonado — e endinheirado. Enfim, apesar da força e da coragem, ela nunca teve suficiente valentia para descartar da cabeça o falatório dos parentes mais distantes — os mais íntimos recebiam ótimos presentes— e conhecidos.  Pensou desde o início que, se casando com um homem num casamento de faz de conta, fosse possível esconder o que todos sabiam ou imaginavam. Mas com o tempo — pensava ela— poderia um dia ultrapassar as barreiras psicológicas de sua vida de faz de conta. Era uma atitude muito sua, da corajosa Arminda, mas que, para os outros daquela pequena cidade, parecia não ter sentido, parecia uma afronta à moral e os bons costumes. Contudo, esta vida que levara ainda a preenchia de um imenso fascínio e sentia a inveja por seu estilo de vida, livre e confortável, que encanta toda mulher e que ainda cumularia seu presente de constantes e intensos prazeres. Prazeres femininos e terrenos, ilusões infindáveis. Gostava de sonhar, dormindo ou mesmo acordada, de ficar longo tempo imaginando, fantasiando, ficando assim longo tempo em seus alegres e prazerosos devaneios.
Assim foi seu passado — pensava ela agora enquanto recordava as boas lembranças, deixando as outras pra depois. Foi lá, há mais de sessenta anos que tudo começou: suas aventuras e desventuras. Felizmente, mais vitórias que dificuldades houve, mas nunca derrotas — mais bem-aventuranças — lembrava novamente, enquanto ouvia as histórias dos amigos presentes.
         Logo chegava outras visitas que foram se acomodando no mesmo jardim, ainda muito fresco àquela hora de um dia que se fazia tarde. As mulheres foram para a sala de estar, convidadas pela filha solteirona de J.J. Bastos, a Zefina. Assim, os homens se sentiriam mais à vontade para contar suas histórias, suas conversas masculinas, ou mesmo contar algumas piadas mais cheias de graça ou daquelas pesadas, que algum engraçadinho mais expansivo quisesse e se atrevesse a contar.
J.J. Bastos, que sempre fora um dos líderes do grupo e mesmo um dos principais da região, parecia não querer tomar partido. Porém, não era falta de vontade; era mesmo muita indisposição, não se sentia minimamente bem para falar qualquer coisa. Sabia e sentia que já não tinha forças, que suas energias se esvaíam; quando tentava falar o fazia pela metade e os visitantes tinham que adivinhar do que se tratava. A voz fraquejava, os pulmões não correspondiam. Todos o tinham em muita conta, por isso o ouviam com a necessária paciência.  Se pudesse falar como queria naquele momento, se as palavras ainda se lhe saíssem tão bem, tão clara quanto seus pensamentos, certamente ele contaria sua vida, falaria da sua juventude, de tudo que lhe foi possível realizar. Das vitórias da sua vida. E também, aliás principalmente, do que não
                                                       

                                                               06
pôde terminar. Porque havia dentro dele muitos arrependimentos. Porém, não eram arrependimentos de decisões erradas, tomadas às pressas, que faz o ser humano comum, ou qualquer um, perder a cabeça. Não; eram decisões não tomadas, deixadas pra depois, para outro dia, e no entretanto deixadas de lado para esquecê-las, mas nunca esquecidas. Agora ainda estavam ali, num cantinho da memória, parecendo querer ocupar cada vez mais espaço. Um destes arrependimentos, talvez o maior, foi deixar Gabriela, quando ela era o que mais queria. E ela, todinha dele. Gabriela o idolatrava, ele era o mundo dela. Ele decidiu por Dalvina pelo motivo que todos sabiam e comentaram na época. Eram as fazendas da família. Filha única, mimada, os pais oferecendo finos presentes ao jovem para conquistá-lo, presentes que valiam como verdadeiros e grandes dotes. Jovem de família pobre, e cujo único bem que possuía era um diploma de universidade que conseguira com sacrifício na cidade grande, JJ Bastos não resistiu aos apelos materiais. Como não pudesse se considerar pessoa importante naquela região de ruralistas, comerciantes e de gente analfabeta como a maioria da população, ele pensava n’alguma forma de sobressair-se. Assim, ele olhava o mundo material como uma meta a alcançar a qualquer preço, desejava ser respeitado na vida social e mundana. Buscava e procurava qualquer saída, qualquer solução que lhe garantisse um futuro de riquezas, de influências. Não que desgostasse de Dalvina, mulher que lhe deu dois filhos e o amava intensamente. Simplesmente não era o amor que havia sonhado desde a infância, desde a escola. Como aquele grande amor por Gabriela, que nasceu com ele desde quando ainda nem compreendia o que era o amor.
          Lembra-se que ia e vinha caminhando e conversando com sua coleguinha, sempre a mesma coleguinha, a mais especial. Todos os dias, todos os meses, até terminar os estudos primários e ele seguir em direção à capital, para a universidade, levado por um padrinho rico. Na distância, com poucos dias, a saudade da amiga lhe bate no peito e como uma ficha que lhe cai, ele então compreende: era o amor. Escreve para ela com o peito aberto, sem jogo, sem subterfúgio, sem esconder nada. Ela responde extasiada, fazendo planos para um futuro que será somente deles. Foram mais de seis anos de cartas e encontros, com as férias sempre tardando em chegar. E depois, um mundo desmoronado, um futuro desfeito, a morte de Gabriela nas profundezas do rio. Seria suicídio? Quase todos diziam que sim; outros que não, que foi acidental e uma infeliz coincidência de momento.
       Sentado em uma grande cadeira de descanso, as pernas esticadas e uma finíssima coberta sobre o corpo, como se uma suave febre o acometesse, ele pensou: Se pudesse refazer sua vida, que faria?  Lágrimas quase lhe nascem nos olhos, a garganta aperta e ele tenta esquecer, ouvindo com mais atenção o amigo Liodoro que falava novamente.
Liodoro, apesar de amigo de todos, tinha uma visão e um pensamento que não condizia com os presentes nem com o tamanho do lugar. Mas ele se adaptava, era como um camaleão em matéria de relacionamentos, de bate-papo, sempre sabendo avaliar o nível de compreensão e entendimento de uma população carente de conhecimentos, de instrução. Tendo viajado pela América do Norte

                                                         07
e Europa, onde viveu algum tempo, compreendia a distância que separava seu mundo interior daquele em que atualmente vivia, rodeado por gente simples, peões da roça, comerciantes e produtores rurais, com muito pouca informação, embora houvesse exceções. Tinha uma grande biblioteca que impressionava seus visitantes, embora a maioria não soubesse pra que servia tanto livro, tanta literatura. Coisa de gente louca, diziam. Liodoro sabia disso e ria, mas como levar conhecimento a um povo cultivado para não aprender nada, pra não estudar, pra não evoluir? Muitos ali ainda viviam na escuridão mental, como em uma senzala anticultural isolada do mundo.
Aos poderosos do país e do lugar, ele sabia, não interessa escola para o povo. Porque um povo estudado e preparado é um povo bravo, perigoso. Assim, nas conversas de roda como aquela, ele falava do que havia visto: de museus, de universidades que pesquisavam e faziam grandes descobertas científicas; que o carro de boi já havia sido esquecido em muitos países. E que um dia o Brasil também chegaria lá, mesmo que os poderosos e corruptos não quisessem, porque as comunicações seriam mais democráticas e assim o conhecimento seria mais facilmente expandido para quem o desejasse. Os brasileiros, dizia ele, são muito inteligentes. Descobriram a tecnologia do avião, cientista como Osvaldo Cruz era reconhecido no mundo inteiro, e novos desbravadores buscavam tenazmente o conhecimento dos computadores, máquinas que um dia dominarão o mundo, dizia ele. E tão importante quanto isso, ou mais ou menos do que isso, dependendo de cada visão ou pensamento, o ser humano acabou de chegar à lua e irá logo mais a outros planetas, dizia ele.
         A maioria dos amigos ria, poucos o levavam a sério nesses assuntos. Nestas conversas e naquele lugar, Liodoro não tinha muita credibilidade, porém era ouvido como um sonhador, fabricante de sonhos e ilusões em que poucos acreditavam, porque não aprenderam a sonhar. Afinal, era dura a realidade para essa gente, onde a maioria ainda parecia viver na caverna do mito de Platão. Embora haja apenas uma geração, era um tempo perigoso em que inocentes, mesmo letrados, eram internados por profissionais da saúde e pela justiça como loucos ou assassinos nos hospícios do país. Tal era o atraso cultural de um povo que ainda não compreendia por qual futuro lutar, ou que atitudes tomar na busca pela evolução. Assim, não era exagero pensar que Liodoro também necessitava estar lá, no fundo de um hospício. Porém, agora, sabendo das necessidades do amigo JJ Bastos, falava de coisas simples, mais compreensíveis para todos, como os avanços da medicina nos países evoluídos, que juntamente com a farmacologia e as novas tecnologias, em pouco tempo salvaria milhões de vidas. As idades cronológicas de cada indivíduo seriam ampliadas em muitos anos. Se antes eram de trinta ou quarenta ou cinquenta, no futuro chegarão a noventa, cem e muito mais, sempre mais anos, de acordo com a evolução da inteligência humana e dos novos conhecimentos. Eliodoro Tomás da Silva e Silveira, como gostava de dizer seu nome, assim completo, não era pouca coisa, pensava ele mesmo, orgulhoso, cheio de autoestima.

                                                       08
        Enquanto ele falava, na sala das mulheres a conversa também corria animada. Dona Corina, coroa de mais ou menos quarenta e cinco anos, a mais informada com as fofocas da cidade, estava contando a última novidade, quentinha como dizia ela. E ainda arrematava: — Vocês podem acreditar, essa é a mais pura verdade, me garantiu quem me contou, pessoa da mais alta confiança.  Contudo, quem em geral lhe municiava de informações tão quentinhas como dizia ela, soube-se com o tempo, era o novo padre. Este chegara à cidade havia apenas seis meses, mas já se inteirara de tudo. Grande irresponsável, depois fugiu e se escondeu em um mosteiro da capital mineira para não ser preso, por abusar de menores e porque gostava que os menores abusassem dele. Ele adorava conversar com ela na sacristia, e ela adorava estar sozinha com ele, ouvindo as últimas quentinhas da cidade e dos paroquianos. E dona Corina falou: — A mulher do prefeito, a Regiane, está saindo com o vice. E a mulher do vice-prefeito, a Luciana, está saindo com o prefeito!!!! A notícia caiu como uma bomba. Porém, a prima de uma das citadas ficou calada. Pareceu não se impressionar com o fato, o que foi interpretado pelas outras como se já soubesse, o que mais esquentou e  avivou a fofoca. Era coisa antiga como se descobriu com o tempo. Tudo se esclareceu depois de terminado o mandato de ambos. Eles anularam e oficializaram os respectivos divórcios e se casaram cada um com a mulher do outro, como todos já comentavam. E explicaram aos amigos mais próximos que descobriram que os respectivos matrimônios haviam sido um equívoco e somente depois, quando começaram a sair juntos os quatro, perceberam o engano; entenderam que cada uma delas e deles haviam encontrado o verdadeiro amor.
          Entretanto, o jovem Francisco José saía com o avô Liodoro depois de se despedir dos presentes. Valdivino, grande comerciante e um dos médiuns do centro espírita da cidade, resolveu acompanhá-los. Lá fora, depois de uma conversa sobre o estado de saúde do amigo enfermo, este disse: — Mas ele ainda pode melhorar. Esta semana, a qualquer hora, quem vai acompanhar a esposa Manuela no outro mundo é Ziquinha da Ana.  Eu a vi abraçando-o durante todo o tempo em que estive lá e observava o ambiente.
Francisco José ouviu aquilo e achou graça, mas só no pensamento. Como agnóstico, não se preocupava minimamente com a metafísica ou qualquer coisa que não tivesse comprovação científica ou lógica. Admitia somente os conhecimentos científicos e os adquiridos pelo que considerava vindos da razão e da inteligência, e evitava qualquer conclusão não demonstrada também na matemática ou materialmente. Mas Valdivino ainda completou: — Se assim não for, não serei um médium de confiança. Podem esperar.
O jovem não disse nada. Tinha sua visão de mundo e não gostava de discussões religiosas nem desrespeitar as crenças alheias. Afinal, pensava ele, religião é ainda hoje indispensável à maioria, como na filosofia grega a mitologia era necessária ao pensamento humano. Assim, as crenças ou religiões como as utopias, fazem parte de qualquer cultura e parecem ser partes necessárias à evolução humana. Mas a ética, pensava ele, deveria ser a verdadeira religião. Contudo, as palavras de Valdivino o deixaram com as orelhas abertas e em pé; gostaria de saber o resultado de tão importante previsão ou profecia. E

                                                        
                                                              09
agora, talvez como nunca antes, poderia aproveitar para tirar alguma conclusão dos conhecimentos incognoscíveis.
 Advogado, queria ser também um escritor reconhecido e assim, fugia dos temas que lhe pareciam arredios, sem explicação em seu modo de ver ou pensar, ou que não tivesse a comprovação que sua inteligência desperta exigia.   Porém, tinha muitas dúvidas que gostaria de verem comprovadas e saber da veracidade ou não. Assim, esta notícia do médium lhe caiu muito bem, quase como uma futura resposta a uma pergunta que poderia ter uma explicação, embora subjetiva, que sempre desejara saber: Existe vida além da morte?
         Enquanto isso, as outras visitas ao enfermo se despediam, desejando-lhe votos de boas melhoras. E quase sozinho naquela grande casa, vivendo apenas com a filha solteirona, J J Bastos começou a pensar, como se estivesse fazendo um inventário de sua vida. O que foi bom, o que foi ruim? Não sabia responder entre tantas que eram as coisas que havia vivido, embora nunca soubesse o sentido da sua vida. Mas e que? O que é a felicidade ou a infelicidade neste mundo individualista e complicado, cada vez mais tecnológico e menos humanista? Ou talvez nem assim fosse, dependendo do ponto de vista de cada um. Porque aqueles que têm a mínima consciência do viver, sabem que tudo é pura ilusão, que tudo pode ser apenas um sonho para alguns ou um pesadelo para outros e muitos.
O que mais o torturava era a lembrança de Gabriela. Sempre se sentiu culpado por sua morte, sempre pensando que fosse mesmo um suicídio, embora não houvesse nenhuma comprovação. Pensava também no poder de um homem rico como ele, vivendo em uma terra de pobreza indigna, e nunca houvesse se preocupado com isso, sendo na maioria das vezes omisso ou a parte vantajosa do sistema social vigente. Agora, como um enxame de abelhas, via seus pensamentos lhe acusar por tudo que podia ter feito, e não fez, ou que simplesmente deixou de fazer, devido à sua inconsciência da natureza das coisas, da sua vida enfim. No entanto, repensava ele, agora no final da vida, que poderia fazer para redimir-se? Sabia muito bem que seu fim estava cada vez mais próximo, que seus poucos dias estavam contados e nada ou alguma coisa poderia fazer para mudar seu destino. Ou algo poderia ser feito pelo menos para aliviar suas dores internas, pelo menos aliviar o sofrimento de sua consciência, ou su’alma? Porque suas dores do corpo se mesclavam às dores da alma, e juntos, os tormentos se tornavam ainda mais dilacerantes. Lembrou-se da esposa e dos muitos amigos que já se foram; agora com certeza era sua vez.   
        Seu sofrimento neste primeiro dia, em sua casa, depois de voltar do hospital, foi em parte tranqüilo, devido às visitas dos amigos. Mas depois, ao estar só, como será enfrentar aquela tempestade, aquele montão de pensamentos a lhe trazer tantas condenações? já imaginava ele construindo pontes no futuro, adiantadamente, pontes que talvez nunca atravessaria pois quase com certeza nunca chegaria lá. E pensando assim, adormeceu, com a esperança de que outros dias ainda viriam, pra recordar tudo de novo, tudo que foi bom ou ruim em sua vida. E rezar pra se aliviar. Se perdoar também, se conseguir,


                                                   10
nem que seja com “reza braba”, como lhe dizia seu compadre Zezim da Venda.
          Entretanto, Francisco José ainda caminhava para casa, entre seu avô Liodoro e o médium Valdivino, que seguia a mesma direção. Porém, o existir, o pensar algo sobre a vida e a morte dos homens, como falara o médium, perturbava o jovem escritor.  — Porque existiu ou ainda existe a genialidade de alguns poucos que passaram e passam pela terra, deixando um rastro de inteligência e de cultura fantástica para a evolução de outros, enquanto outros nem desejam conhecer? pensava ele. Porque cientistas, artistas das mais variadas artes foram em tempos idos tão inteligentes e criativos?  Porque estadistas e líderes verdadeiros souberam governar com justiça e deixaram exemplos de grandes ideais, como as construções materiais e as culturais, enquanto outros nem tomam conhecimento?  Enfim, são muitos os sábios mortos e vivos deste mundo para lembrar e contar, pensava ele.
         Logo passam em frente da casa de Valdivino, que se despede e entra, enquanto a filha Marina continua no portão, conversando com uma vizinha. Francisco José não deixa de dar uma paradinha ali, pra gozar um dedo de prosa com uma das moças mais bonita da cidade. A amiga se despede como adivinhando algo de misterioso e secreto entre os dois, que embora ainda não se declararam, estão como dois pombinhos a conquistar um ao outro. Começaram a falar do tempo, de uma noite enluarada como aquela, tão linda que, olhando para o céu, daria vontade de escrever poesias, ou cantar nem que fosse por dentro, pra quem não sabe cantar por fora. Marina pergunta: — Você gosta de cantar por dentro? — Eu adoro cantar por dentro e por fora. Sempre canto por fora quando estou no banheiro — e deu uma boa risada! — E você? pergunta ele. — Ahhh!!!, não tenho este maravilhoso dom de cantar por fora. Então o jeito é cantar por dentro, coisa que faço muitas vezes, quando estou contente, responde ela.
       Havia muito tempo ele desejava levar a conversa para o lado dos sentimentos, onde nele já nascia uma vontade grande de ficar mais perto dela. Mas não sabia por onde nem como começar, não imaginava o que ela poderia mais gostar.  Então começou a pensar o que seria, para ganhar tempo. Pensou que, com calma e com um pouco de sorte, poderia adivinhar; iria começar a falar do tempo, daquele começo de noite de céu enluarado, muitas estrelas. — Tem ido ao cinema? Nem sei o que está passando por estes dias. Tenho muito trabalho e o tempo restante estou a escrever um conto, meu segundo trabalho de literatura. — Ela se interessou e respondeu perguntando: — Não tenho ido ao cinema, estou estudando para as provas da faculdade, e nos momentos de lazer, gosto da leitura. Estou lendo Lima Barreto, um dos meus escritores preferidos.  Mas afinal, está escrevendo sobre o que? Posso saber? perguntou  ela num lindo sorriso, curiosa. Ele olhou-a bem fundo nos olhos, lindos olhos negros, porém ela não resistiu a tão longa mirada. Desviou o olhar para o céu, depois pra baixo, como a fugir de tão profundo olhar. Ele continuou olhando seus olhos e disse: — Não gostaria de lhe dizer agora, mas prometo que lhe mostrarei em primeira mão, quando terminar, pois também desejo sua opinião
                                                      


                                                                11
de inteligente e grande leitora. Pode ser? — Claro, será um prazer imenso para mim. Gosto de todos os temas literários porque acho que, o mais importante é a forma de escrever, de contar a história, a maneira como o autor se comunica com o leitor, como se manipula a vontade de continuar lendo uma história qualquer. O que você acha? e espera a resposta depois de uma pausa que não vem. De novo ele a olha profundamente, bem no fundo dos olhos como da primeira vez. Ela agora lhe resiste a mirada e ele, sem pestanejar, responde: — Tem razão, eu também acho que  é assim. E talvez por isso mesmo, seja tão difícil a carreira de escrevedor. Porque não basta escrever bem, é necessário saber comunicar com o leitor, saber captar a curiosidade mental, a atenção que toda leitura exige. Por isso a necessidade do texto ser limpo, resumido, para ser agradável.
Ela concordou e continuou, tentando mudar de assunto: — Você pretende continuar vivendo nesta pequena cidade, ou deseja voltar pra capital, onde tem boas relações e seria mais fácil para a carreira que pretende seguir, pra divulgar seus trabalhos? Não lhe parece melhor? perguntou ela como a querer saber um pouquinho da sua vida. Ele lhe dá outra mirada, agora com os olhos a brilhar: — Gosto mais do interior. Aqui, além de muitos familiares, tenho muitos amigos e a vida se me torna melhor, não mais fácil. Além de lindas amigas, lógico— termina com um sorriso disfarçado. Ela entende, corresponde ao olhar e também disfarça, olhando o firmamento cheio de luz. Ele criou coragem, empurrou-a carinhosamente para dentro do portão como a fugir do ângulo de visão da rua, pegou no queixinho dela e lhe disse: — Você é muito linda e gosto do seu jeito de ser, sempre gostei. Tenho que ir-me agora, mas amanhã quero vê-la aqui no portão, às oito horas. Posso? Ela ainda muito tímida, ou querendo parecer tímida, olhou pra baixo sorrindo, e sem coragem de fitá-lo, respondeu: — Claro. Estarei esperando. — Antes de seguir seu caminho, porém, ele criou mais coragem, a coragem que precisava, que desejava naquele momento. Depois de conversar e pensar na morte até chegar ali, queria agora sentir a vida representada pela linda jovem, representada pelo prazer, ainda um mínimo de prazer. Sua mão que a pegava pelo queixo ficou firme, como a segurá-la. E pelo mesmo queixo que ele a pegava, puxou-a e continuou firme como a prendê-la com seus dedos, carinhosamente.  A outra mão, na nuca, atraindo-a e acariciando-lhe o lindo cabelo. Sua boca tocou a dela, sua língua penetrou-lhe quase a lhe tocar a garganta, tal era o desejo de seu prazer, de quase possuí-la. Sua língua agora úmida seguiu um movimento de vai-e-vem, mais ou menos cinco vezes, até que ela deu sinais de uma leve tosse, mais de ansiedade que desagrado, ou de pura surpresa, sentiu ele. Ele esmoreceu, flexível e carinhosamente, deixando que se desgarrara dela sua língua e sua boca. Depois sorriram e ele desapareceu na escuridão ainda disforme daquela noite que começava e seguiu pra casa. Pensava em continuar a história que havia começado e não sabia quando iria terminar. Era seu primeiro livro de contos. Queria contar como era viver numa pequena cidade; a sua cidade com sua gente.
Entra em casa, eufórico, pensando ainda em Marina, no encontro da próxima noite, nos próximos beijos que seriam muito mais intensos. Ver Marina outra
                                                    

                                                              12

vez e muitas outras era o que mais desejava. Passa pelo corredor e vê pela porta entreaberta da biblioteca, o avô que está sentado, lendo um livro sobre a grande mesa. Segue para o quarto e senta-se à sua escrivaninha; escreve na pequena máquina algumas frases que já trazia formadas na memória. De repente, pouco depois, alguns minutos apenas, ouve um tiro e o baque de um corpo que cai. Corre até a biblioteca onde o avô se esvai em sangue. Está o chão vermelho, pelo líquido que lhe sai pelo ouvido e pela boca. Um intenso golpe interno mesclado com um horrível susto lhe paralisa. Não sabe o que fazer a não ser se abaixar, sentar-se no piso e abraçar o avô, colocar sua cabeça em seu colo. Começa a chorar, mas as lágrimas não vem. Sente-se como se o mundo lhe tivesse caído em cima e o solo se afastasse de seus pés. Está ali na casa grande, imensa, agora sozinho. Somente ele e o morto com uma arma na mão; inerte. A servente já foi embora. Os vizinhos ouvem o barulho e começam a chegar, perguntando, assustados. De repente a sala e a biblioteca estão cheias de gente.
Ele ficou mudo, a pensar, não tinha compreendido nada; porque aquela tragédia?
          Somente meses depois, lembrou-se do que o avô lhe dissera dias antes daquela fatídica noite. Que estava difícil sobrelevar a vida com as doenças que lhe traziam tantas dores; as dificuldades de compreender e administrar psicologicamente seus problemas, irresoluções de sua vida que chegava ao fim. Ter de esperar, ter de ficar à espera da finitude não lhe trazia nenhuma inspiração, disse ele com ironia. Talvez, pensou Francisco Jose, a visita ao amigo J. J. Bastos,ver e sentir o início do seu fim, o houvesse impactado em demasia e desequilibrado seu já inconformado modo de pensar. E de viver.
                                                               Coromandel-MG    Setembro de 2015


 









ENTRE A MEMÓRIA E O TEMPO
                                                                                                                               CRÔNICA
Interessante é o exercício da memória, que através do pensamento, vai nos levando a outros tempos, tanto àqueles que nos foram bem vividos, quanto outros que gostaríamos de esquecer. Tal se passa com esse escrevedor ao passar em frente ao velho cinema, que foi o marco principal dos acontecimentos desta cidade até o advento da nova tecnologia, que nos deu primeiramente o videocassete, mudando assim de repente toda a história da cinematografia e radicalmente a comunicação visual.
  O cinema, ou o Cine União, atraía todos os habitantes da velha Coromandel, não só pelos filmes que passava, mas, principalmente, pela sua importante centralidade, tanto física quanto social, chamando a atenção de todos os moradores que houvesse na região. A pequena praça em frente parece não contar muito, pois além de pequena, sempre foi descuidada pela administração pública municipal.
   A primeira coisa a ser feita ao passar por ali, era ver através da grande porta de ferro entrelaçado, os enormes cartazes que anunciavam os filmes da noite ou da matiné e a programação da semana. No meu caso, era mais uma questão de esperança que nunca morria. Porque os filmes eram medíocres e quase sempre do mesmo tema. Eu era um grande amante dessa grande arte e já sabia, apesar da idade, escolher uma boa história, uma história com conteúdo artístico e cultural, que pudesse acrescentar algo positivo e duradouro para levar comigo, somando com outras exigências para formar assim, minha futura bagagem psicológica. Alguns dos principais que me recordo eram os filmes de luta livre de um tal de Santo, filmografia medíocre, se me recordo bem era feita no México, onde o herói mascarado era sempre o vencedor do ringue, lugar onde sempre se passava a hora e meia da fita, sem cenário exterior; somente ali, no ringue, o espaço da luta. De vez em quando, a esperança se tornava realidade e um bom filme chegava para alegrar minha infância.
   À noite, nos fins de semana, as moças da cidade faziam o seu vai-e-vem ali em frente, entre a pracinha e o cine, enquanto os rapazes ficavam a ver. Era assim que os olhares se cruzavam em emocionantes flertes, que podiam desaguar em namoros, noivados; em muitos casamentos.
   Estas lembranças ainda me são muito fortes, embora venham da minha adolescência. Mas eu era um atento observador dos fatos que já sonhava em ser adulto, para poder participar mais ativamente daquela festa, das tão poucas festas que havia. Porém, era ainda uma época em que o máximo permitido era pegar nas mãos e os beijos mais quentes ficavam pra muito tempo depois.
  Na parte mais alta do edifício ficavam dois potentes altofalantes, onde o que mais se ouvia eram músicas orquestradas, lindas por sinal, mas quase sempre as mesmas.
  Logo, chegando à idade adulta, parti para longe, seguindo os passos de muitos jovens como eu, em direção à universidade. Hoje, cinquentão, não me pergunto se foi bom ou ruim, mas gosto de lembrar as trocas de gibis com os amiguinhos ali em frente, naquela pracinha descuidada, onde o Zorro, Fantasma, Pato Donald e muitos outros heróis me incentivaram a ler, a estudar e a viajar pelo mundo dentro de mim mesmo.
   E depois, já adulto, fiquei a recordar as linhas dos mapas que me ensinaram as geografias e as histórias, por onde desconhecidos e interessantíssimos caminhos me levaram.  Felizmente. Porque a televisão ainda não havia chegado para idiotizar minha infância.
     Que coisa! Quem consegue olvidar os tempos de uma memória gravada lá longe, que parece ainda fresca e fortemente guardada em um aconchegante lugar do passado?     J. Borges




  QUEM ESTÁ FICANDO MALUCO?
                                  EU?               CRÔNICA       
Recebi e-mail de um amigo dizendo que estou ficando maluco. Além de me acusar de nunca visitá-lo, diz também que não lhe dou muita atenção quando nos encontramos em algum lugar, como acontece em diversas oportunidades. Disse que só penso em comunicar-me passando e-mails ou falar no celular para os rápidos ou longos recados, mesmo quando estou na garagem e preciso falar com alguém dentro de casa. Também me jogou na cara, isso é, no e-mail, que mesmo com os vizinhos e até com os de casa eu faço a mesma coisa, como já lhe comentaram. E que quase sempre, pelas manhãs, ligo o computador antes de tomar o café e assim mesmo antes de comer, começo a ver o que a máquina tem a me dizer.
Falou tanta besteira o meu amigo, que ainda estou ressentido. Continuou dizendo que quando não estou fazendo nada, estou fazendo muito, ocupado. Vou ver os arquivos de piadas que encaminham para mim e que ao ler, eu fico a rir sozinho feito um doido em frente ao monitor; que depois as reencaminho para os meus contatos. E pior. Disse na cara dura, ou melhor, escreveu, que todas as piadas que conheço eu vi nos referidos e-mails. Disse também que minha invocação com tecnologia vai me deixar cada vez mais alienado, e que quando parar meu computador, copiadora, scanner, internet, web cam, aparelho DVD, Blue-Ray, HDTV, Net Book, câmara digital, celular, Ipod, Mp3 e Mp4, Pen Drive etc. etc., será como se fosse meu próprio coração, nem que seja só por um momento. Que saio para trabalhar com o dia clareando e volto pra casa quando a noite já começou, querendo dizer-me com isso pra sentir mais a vida que nem percebo passar; que ela se me esvai tal qual meus pensamentos que não param de voar, preocupado com tanta coisa boba destes tempos modernos.
Depois de um pouquinho chateado com tanta verdade, começo a ficar contente por meu amigo ter tido pelo menos aquela simpatia de escrever-me algo, coisa tão rara hoje em dia. Porque nunca recebo longos textos de e-mails, a não ser os encaminhados pelos meus contatos, a maioria imaginários, isso é, virtuais. Esses e-mails em geral são produzidos por gente desconhecida que trabalha em tecnologia e são pagas para fazê-los. Tudo bem, nada contra, mas não é o mesmo que receber de gente de carne e osso, que se conhece. Bem, para terminar a história, comecei a desconfiar que não foi meu amigo que escreveu tanta loucura sobre mim. Como a grande maioria do povo deste país, ele detesta ler, quanto mais escrever!
Verifico de novo o cabeçalho do e-mail e vejo que ele apenas o encaminhou, como todos fazemos com aqueles que achamos interessantes e gostamos, e outros que nem lemos, simplesmente passamos pra frente. Nunca escrevemos nada, nem uma mensagem de bom dia, boa tarde, boa noite, ou pelo menos algumas palavrinhas perguntando: Como vai você? 
Pra terminar, voltei a ficar ressentido com meu amigo. Não é bem ressentido a palavra, mas um pouco chateado. Pessoa insensível, individualista, preocupada somente com o pouco tempo e os seus afazeres, como os seres humanos modernos, os que vivemos neste século dos solitários. E depois, me envia um e-mail e me chama de maluco! Será que sou mesmo? Mas somente eu? J. borges

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário