Nem para os
grandes talentos da literatura, a primeira publicação impressa de qualquer
material nunca foi fácil. Imaginemos assim os textos de um desconhecido amante da
escrita, ou então daqueles novatos que por uma razão ou outra gostam de
escrever. Atte: j.borges
OS ÚLTIMOS DIAS DE J. J. BASTOS
CONTO
A conversa agradava a todos, apesar dos pesares, apesar do momento que parecia propício à tristeza. Alguns presentes criavam coragem e se despiam dos preconceitos há muito tempo guardados; chegavam a se abrir sobre sentimentos que lhe eram íntimos, caros, que ainda não se animaram a compartilhar com ninguém. J.J. Bastos escutava com atenção, mas continuava calado, embora como bom ouvinte, fixava os olhos naquele que falava e sempre meneava a cabeça em sinal de concordância, mesmo quando lhe parecesse absurdo partes daquilo que ouvia. Quem começou primeiro a contar sua história, num desabafo de amigo para amigos, foi o Liodoro. Já contava com setenta e oito anos e não mais encontrava razão para viver, embora tivesse buscado tais razões e explicações nos livros de filosofia, nos livros sagrados ou mesmo ouvindo palestras de supostos sábios. Destes supostos sábios que sempre apareciam para tentar lhe meter goela abaixo diferentes convicções ou opiniões, que nem eles mesmos acreditavam. Juventude, velhice, vida e morte não se explicam, falava. Era ele, Liodoro, como todos diziam, um eterno inconformado.
Ziquinha da Ana tomou coragem e quando
a pausa começou e o silêncio caiu, ele iniciou sua fala, num desabafo de tudo o
que lhe importunava, principalmente as mágoas recolhidas de seus sonhos
irrealizados, esfumaçados e diluídos pelas desilusões de sua vida— que agora
pensava— estava perto do fim. Já tinha vivido mais de setenta e cinco anos. Falou
da ingratidão dos amigos, principalmente seus filhos, criados no conforto da
sua labuta, razão de tudo porque lutara.
Era em pró da família que trabalhara de sol a sol, embora o que lhe
restava agora era a solidão, depois que sua querida esposa Manuela faleceu.
Não, não podia entender a insensibilidade daqueles que criou, por quem lutou, e
que agora só pensavam na herança. Mas teriam que esperar, pois mesmo que
estivesse muito chateado com a vida que levava, não pensava em morrer depressa,
pelo menos por enquanto. Num meio sorriso, com muita ironia, disse que só
depois de seu enterro pegariam algo, e talvez, mesmo assim, antes de bater as
botas ele poderia fazer um testamento ou inventário deixando sua fortuna ou
parte dela para uma instituição filantrópica. Ou mesmo, quem sabe, dar qualquer
coisa para alguma belezura que com muita lábia conseguisse enganá-lo e
conquistasse seu já sensível e cansado coração. Enquanto estivesse vivo, tudo
era possível, — terminou ele sarcástico e ainda mais irônico. Deu outro meio
sorriso, agora humorado e menos triste. Parecia mais contente e menos amargurado
por haver compartilhado seu estado de espírito. Seus pensamentos, que antes o
deixavam embaraçado e quase nunca lhe davam tréguas, depois de desabafar lhe
trouxeram certo conformismo e tranquilidade. Sentiu a satisfação e a calma
deixadas por uma ansiedade que se foi. Sua louca vontade de compartilhar seus
problemas com alguém estava enfim, satisfeita. Foi além e tocou fundo, pensou
ele, após falar do enfado com seus familiares, parentes e amigos mais chegados,
todos ingratos, que somente lhe procuravam em busca de favores.
02
Antônio Silva, outro amigo presente, continuava
calado e não fazia menção de falar. Somente ouvia, mas a sós com alguém,
gostava de contar sua vida, relembrar seu passado, o que lhe trazia grandes
saudades, dizia. De quase oitenta anos, se sentia um homem realizado. Sempre
dissera aos amigos que tudo na vida lhe correra bem; os negócios, a família
unida, os filhos e netos amorosos. Pensava que o mundo era um lugar muito bom pra
se viver, e não queria imaginar outra vida que não fosse aquela sua, tão bem
vivida. A esposa Carminda era uma adorável mulher que lhe comprazia em tudo, ou
quase tudo, às vezes até lhe adivinhava os pensamentos.
Contudo, ela — nunca percebera ele — influenciava
totalmente a família, decidindo qualquer assunto importante ou não, que se
referisse à vida de todos à sua volta. Enfim, Antônio e os familiares viviam
sobre o regime matriarcal e queriam segurança, e embora inconscientemente por
isso não gozassem de uma vida com liberdade própria, era plena de satisfações.
Satisfações passageiras e insignificantes, muito efêmeras, mas satisfações.
Mas
dona Carminda não era feliz, nunca se sentira feliz, confessava às amigas mais
íntimas. Porém, enfrentara com bravura e sabedoria os infortúnios da vida,
buscando sempre sua liberdade interior, que sempre lhe parecera distante,
apesar de tudo. Desde que tomou aquela decisão de viver um romance proibido do
qual nunca conseguira se desvencilhar — tão forte que nunca pensara nisso, porque
era uma prisão da qual inconscientemente nunca desejara sair e se libertar — a
vida lhe seria indiferente, quase sem doce, embora ela nunca aceitasse e lutasse
para sobressair em outros aspectos de sua vida. Não, ela nunca foi mais a mesma, repensava
remoendo seu passado. Contudo, trabalhara e lutara como um burro de carga para sobrelevar
sua vida e realizar a vida de outros, muitos outros, seus familiares. Nascera
ela numa pobreza que considerava indigna, numa terra onde as classes sociais
pareciam se dividir em castas, tal eram as diferentes classificações que tornava
muito difícil qualquer indivíduo sem recursos se sobressair. Para realizar
algum objetivo, mesmo insignificante, sem muita importância na sociedade, dificilmente
alguém o faria se não fosse bem relacionado ou tivesse um parente ou um
padrinho rico, que pudesse proteger contra as intempéries do sistema social
vigente, tanto educacional quanto econômico.
Além
deles, outros amigos chegaram para visitar Joaquim José Bastos, o JJ Bastos
como todos o conheciam. Viúvo de oitenta anos — a completar nos próximos dias —
de uma saúde que parecia inabalável, agora estava de repouso e de chegada do
hospital, com uma infecção pulmonar que não lhe dava tréguas. Sentados na espaçosa
varanda interna, com uma suave brisa no jardim do quintal a refrescar o
ambiente, os visitantes se comoviam ao verem uns aos outros, já velhos e sem o
vigor de outros tempos. Eram amigos que há muito não se viam por motivo de saúde
ou outro qualquer. Porém, eles viveram juntos desde crianças, entrelaçados
pelas vicissitudes da vida, naquela pequena cidade que aos poucos foi
crescendo, mudando com o tempo. Agora, de novo se encontravam ali, reunidos
como nas festas do passado a entreverem o futuro. Futuro bom para alguns mais
sonhadores, que ainda esperavam novos e melhores dias. Desilusão para outros e
quase todos, cuja esperança
03
ruíra
e não mais esperavam muito tempo por viver. Outros que deixaram suas lembranças
amarradas a um passado que não voltaria jamais.
Carminda
também estava presente, ouvindo a conversa, calada. Não havia espaço para seus
lamentos e suas incompreensões femininas, ali, naquele antro de machistas — pensava
ela agora como percebeu desde o início, no seu passado distante. Contudo, nem queria
lamentar ou desabafar; somente desejava explicar suas atitudes e seus
desenganos, na esperança de que alguém a entendesse, compreendesse a pesada
carga que a vida lhe impusera e que— pensava ela — pouquíssimos suportariam. Queria
falar, gritar até, naquele momento que lhe pareceu tão raro e quase mágico,
franco e aberto, e animado pelos amigos presentes. Mas não, não desejava explicar
como uma forma de desculpa, mas de libertação, de amostra de ousadia, da sua
ousadia. Dizer-lhes como fora sua vida e suas dificuldades até ali, naquele
momento. Porque viver sua vida livre como ela viveu, embora enfrentando toda
forma de preconceito, — e necessitava que assim fosse — fora viver corajosamente.
Principalmente numa pequena cidade de costumes antiquados, atrasados e machistas,
cheia de preconceitos e incompreensões. Podia se sentir quase uma heroína,
pensou, dentro de um leve e complacente sorriso. Contudo, afinal, não foi tão difícil
e quase impossível como lhe parecera no início, na sua juventude. Ademais, ela
às vezes se alegrava ao se lembrar do momento em que percebeu que era muito mais
forte do que jamais imaginara ser naquele então.
Queria que a deixassem falar agora, gritar
para os presentes e para o mundo suas vitórias e também suas dificuldades, que
a muitos homens e mulheres pareciam derrotas. Mas sabia que estes homens e
mesmo muitas mulheres jamais a compreenderiam, porque nunca aceitaram o fato
dela ter sido livre e aberta, ter vivido sempre disposta a enfrentar o mundo, como
as más línguas, o ambiente hostil às mulheres corajosas, insubmissas, donas do
próprio nariz. Não se retraía, nem quando às vezes queria ter uma aventura
amorosa com quem simpatizasse e a atraísse. Ela não media esforços. Mesmo
depois de casada, embora com os disfarces daquele casamento de faz de conta,
ela se sentia livre e por isso mesmo, gostava de ser aquela líder estar por cima em qualquer relação pessoal,
sobretudo em sua casa.
São sacanas os homens, pensava, porque
desejam a posse de uma mulher e a possuem quase como os bichos. Depois de
usá-la e desonrá-la do ponto de vista masculino — ou mesmo somente com o olhar,
o pensar e o falar dos machos sempre sequiosos de prazer — a jogam fora como de
um lixo se tratasse, pensava com amargura. Nunca deixara de recordar as frágeis
e impotentes mulheres suas conhecidas; estupradas, ultrajadas e deixadas pelos descaminhos
da sociedade e da vida, abandonadas à prostituição, sem destino e à margem de
um sistema social injusto e preconceituoso. Como sua irmã Dilva, sua prima
Tiana e muitas amigas. Mas com ela sempre foi diferente, ahhhh, com Arminda não
havia enganação masculina ou machista. Ela aprendeu ainda jovem a se valorizar,
se defender, como usar todas as armas da sedução, aproveitando cada momento da
sua vida de mulher bonita, mansa como uma pombinha mas maliciosa como uma serpente. Soube viver com paixão — reconhecia
— graças a seu sábio amante e protetor. Sebastião Freitas era um
04
verdadeiro homem, o homem que brilhou em sua
vida e que ela se não o amara de todo coração, com seu coração de mulher, o
idolatrava como ser humano.
Sua primeira experiência de prazer foi com
Ricardinho, adolescente como ela, filho de um peão de fazenda que, levado pelo
padrinho para a capital, sempre aparecia nas férias da faculdade e gostava de
passear e acompanhá-la, de conversar sobre as novidades da cidade grande.
Enquanto isso, ele, tão atraente e tão atrevido, não podia ver um recanto ou um
tronco de árvore onde pudesse se esconder, ou pelo menos se disfarçar da vista
dos outros. Depois, abraçadinho com ela, a beijava sofregamente, lhe dava um
amasso e lhe fazia um gostoso carinho com demonstrações de ternura que a fazia
delirar. Era um prazer que conhecera e nunca esqueceria. Tinha já um rosto lindo,
o corpo ainda se desenvolvendo, mas já mostrando as formas perfeitas, as belas
curvas que enlouqueceriam os homens.
Lembrava a muitos uma gostosa e desejosa fruta que aos poucos
amadurecia. Enfim, era uma linda menina moça, que não tardou em atrair os olhos
de Sebastião Freitas, homem casado, o maior pecuarista da região. Na primeira
oportunidade de se encontrarem a sós, ele fez as mais belas e sinceras
promessas que um galanteador pode fazer a uma princesa, como ela parecia a ele.
Embora homem rude, bem mais velho — podia ser seu avô — era carinhoso e até
romântico, além de mão aberta como ela já sabia, tal era a fama do fazendeiro
rico entre a mulherada da região. Foi com ele sua primeira noite passada com um
homem, e não com Ricardinho como ela desejava. Mas valeu a pena, relembra em
uma doce lembrança. A experiência dele se sobrepôs à juventude do rapazinho
bonito que não esquecera. Passaram uma noite cheia de surpresas para ela.
Depois, sem sua virgindade, apesar de tão importante ainda, ficou contente com
a primeira das promessas de Sebastião Freitas sendo cumprida ao pé da letra.
Foram para a cidade grande onde se hospedaram em uma casa alugada com
antecedência, e dali saíam a passear. Primeiramente para ver as vitrines das
melhores lojas de moda feminina, além de muitos passeios em outras lojas
comerciais, onde ela comprava presentes para os familiares, principalmente para
a mãe, que já sabia e era cúmplice, cega a tudo, e muito contente com o futuro
seguro da filha. Afinal, Sebastião Freitas não era bobo, sabendo que Arminda
era ainda uma garota de apenas dezesseis anos e ele precisava ter a máxima
cautela. Queria conquistar tranquilamente a simpatia e o amor de sua princesa,
e calar o bico da família inteira. Ele a queria loucamente, ela seria para sempre
sua princesa, mas também queria conservar eternamente sua rainha, pensava ele.
De
volta à pequena cidade, que fazer para continuarem juntos? pensavam. A solução
ela mesma encontrou: Que tal uma casa como escritório, um local onde pudesse
haver um espaço para guardar material, equipamentos e o controle de tudo? Ela
como secretária seria perfeito, ninguém desconfiaria, embora também não
acreditaria de todo, sabendo da fama do fazendeiro rico e comilão, em lutar e
ganhar todas as disputas, principalmente por mulheres. E ela assim, tão linda! Mas
e daí? relembra ela num meio sorriso.
Depois, atrevidamente, pra arrematar, ela namorava
e depois se casava com Antônio Silva. Mas todos os filhos tinham a cara do
famoso fazendeiro.
05
Por
isso, diziam — mexericavam, dizia ela — na cidade que Antônio Silva ganhava
salário do grande pecuarista pra morar na casa dela e servir como vigia,
fazendo de conta de marido. Para Sebastião de Freitas ela deu a vida, mas
também recebeu tudo que dele desejava, como o amante perfeito que zelava por
ela. Cuidava de tudo no seu presente e lhe preparava um belo e grandioso futuro.
Pela vida da sua princesa como ela parecia a ele, Sebastião se entregava de
corpo e alma. Ia até o mais profundo do seu coração apaixonado — e endinheirado.
Enfim, apesar da força e da coragem, ela nunca teve suficiente valentia para
descartar da cabeça o falatório dos parentes mais distantes — os mais íntimos
recebiam ótimos presentes— e conhecidos.
Pensou desde o início que, se casando com um homem num casamento de faz
de conta, fosse possível esconder o que todos sabiam ou imaginavam. Mas com o
tempo — pensava ela— poderia um dia ultrapassar as barreiras psicológicas de
sua vida de faz de conta. Era uma atitude muito sua, da corajosa Arminda, mas
que, para os outros daquela pequena cidade, parecia não ter sentido, parecia
uma afronta à moral e os bons costumes. Contudo, esta vida que levara ainda a
preenchia de um imenso fascínio e sentia a inveja por seu estilo de vida, livre
e confortável, que encanta toda mulher e que ainda cumularia seu presente de
constantes e intensos prazeres. Prazeres femininos e terrenos, ilusões infindáveis.
Gostava de sonhar, dormindo ou mesmo acordada, de ficar longo tempo imaginando,
fantasiando, ficando assim longo tempo em seus alegres e prazerosos devaneios.
Assim
foi seu passado — pensava ela agora enquanto recordava as boas lembranças,
deixando as outras pra depois. Foi lá, há mais de sessenta anos que tudo
começou: suas aventuras e desventuras. Felizmente, mais vitórias que
dificuldades houve, mas nunca derrotas — mais bem-aventuranças — lembrava
novamente, enquanto ouvia as histórias dos amigos presentes.
Logo chegava outras visitas que foram
se acomodando no mesmo jardim, ainda muito fresco àquela hora de um dia que se
fazia tarde. As mulheres foram para a sala de estar, convidadas pela filha
solteirona de J.J. Bastos, a Zefina. Assim, os homens se sentiriam mais à
vontade para contar suas histórias, suas conversas masculinas, ou mesmo contar algumas
piadas mais cheias de graça ou daquelas pesadas, que algum engraçadinho mais
expansivo quisesse e se atrevesse a contar.
J.J.
Bastos, que sempre fora um dos líderes do grupo e mesmo um dos principais da
região, parecia não querer tomar partido. Porém, não era falta de vontade; era mesmo
muita indisposição, não se sentia minimamente bem para falar qualquer coisa.
Sabia e sentia que já não tinha forças, que suas energias se esvaíam; quando
tentava falar o fazia pela metade e os visitantes tinham que adivinhar do que
se tratava. A voz fraquejava, os pulmões não correspondiam. Todos o tinham em
muita conta, por isso o ouviam com a necessária paciência. Se pudesse falar como queria naquele momento,
se as palavras ainda se lhe saíssem tão bem, tão clara quanto seus pensamentos,
certamente ele contaria sua vida, falaria da sua juventude, de tudo que lhe foi
possível realizar. Das vitórias da sua vida. E também, aliás principalmente, do
que não
06
pôde
terminar. Porque havia dentro dele muitos arrependimentos. Porém, não eram
arrependimentos de decisões erradas, tomadas às pressas, que faz o ser humano
comum, ou qualquer um, perder a cabeça. Não; eram decisões não tomadas,
deixadas pra depois, para outro dia, e no entretanto deixadas de lado para
esquecê-las, mas nunca esquecidas. Agora ainda estavam ali, num cantinho da
memória, parecendo querer ocupar cada vez mais espaço. Um destes arrependimentos,
talvez o maior, foi deixar Gabriela, quando ela era o que mais queria. E ela,
todinha dele. Gabriela o idolatrava, ele era o mundo dela. Ele decidiu por
Dalvina pelo motivo que todos sabiam e comentaram na época. Eram as fazendas da
família. Filha única, mimada, os pais oferecendo finos presentes ao jovem para
conquistá-lo, presentes que valiam como verdadeiros e grandes dotes. Jovem de
família pobre, e cujo único bem que possuía era um diploma de universidade que
conseguira com sacrifício na cidade grande, JJ Bastos não resistiu aos apelos
materiais. Como não pudesse se considerar pessoa importante naquela região de ruralistas,
comerciantes e de gente analfabeta como a maioria da população, ele pensava
n’alguma forma de sobressair-se. Assim, ele olhava o mundo material como uma
meta a alcançar a qualquer preço, desejava ser respeitado na vida social e
mundana. Buscava e procurava qualquer saída, qualquer solução que lhe
garantisse um futuro de riquezas, de influências. Não que desgostasse de
Dalvina, mulher que lhe deu dois filhos e o amava intensamente. Simplesmente
não era o amor que havia sonhado desde a infância, desde a escola. Como aquele
grande amor por Gabriela, que nasceu com ele desde quando ainda nem compreendia
o que era o amor.
Lembra-se que ia e vinha caminhando e
conversando com sua coleguinha, sempre a mesma coleguinha, a mais especial.
Todos os dias, todos os meses, até terminar os estudos primários e ele seguir
em direção à capital, para a universidade, levado por um padrinho rico. Na
distância, com poucos dias, a saudade da amiga lhe bate no peito e como uma
ficha que lhe cai, ele então compreende: era o amor. Escreve para ela com o
peito aberto, sem jogo, sem subterfúgio, sem esconder nada. Ela responde
extasiada, fazendo planos para um futuro que será somente deles. Foram mais de
seis anos de cartas e encontros, com as férias sempre tardando em chegar. E
depois, um mundo desmoronado, um futuro desfeito, a morte de Gabriela nas
profundezas do rio. Seria suicídio? Quase todos diziam que sim; outros que não,
que foi acidental e uma infeliz coincidência de momento.
Sentado em uma grande cadeira de
descanso, as pernas esticadas e uma finíssima coberta sobre o corpo, como se
uma suave febre o acometesse, ele pensou: Se pudesse refazer sua vida, que
faria? Lágrimas quase lhe nascem nos
olhos, a garganta aperta e ele tenta esquecer, ouvindo com mais atenção o amigo
Liodoro que falava novamente.
Liodoro,
apesar de amigo de todos, tinha uma visão e um pensamento que não condizia com
os presentes nem com o tamanho do lugar. Mas ele se adaptava, era como um
camaleão em matéria de relacionamentos, de bate-papo, sempre sabendo avaliar o
nível de compreensão e entendimento de uma população carente de conhecimentos,
de instrução. Tendo viajado pela América do Norte
07
e
Europa, onde viveu algum tempo, compreendia a distância que separava seu mundo
interior daquele em que atualmente vivia, rodeado por gente simples, peões da
roça, comerciantes e produtores rurais, com muito pouca informação, embora
houvesse exceções. Tinha uma grande biblioteca que impressionava seus
visitantes, embora a maioria não soubesse pra que servia tanto livro, tanta
literatura. Coisa de gente louca, diziam. Liodoro sabia disso e ria, mas como
levar conhecimento a um povo cultivado para não aprender nada, pra não estudar,
pra não evoluir? Muitos ali ainda viviam na escuridão mental, como em uma
senzala anticultural isolada do mundo.
Aos
poderosos do país e do lugar, ele sabia, não interessa escola para o povo.
Porque um povo estudado e preparado é um povo bravo, perigoso. Assim, nas
conversas de roda como aquela, ele falava do que havia visto: de museus, de
universidades que pesquisavam e faziam grandes descobertas científicas; que o
carro de boi já havia sido esquecido em muitos países. E que um dia o Brasil
também chegaria lá, mesmo que os poderosos e corruptos não quisessem, porque as
comunicações seriam mais democráticas e assim o conhecimento seria mais
facilmente expandido para quem o desejasse. Os brasileiros, dizia ele, são
muito inteligentes. Descobriram a tecnologia do avião, cientista como Osvaldo
Cruz era reconhecido no mundo inteiro, e novos desbravadores buscavam
tenazmente o conhecimento dos computadores, máquinas que um dia dominarão o
mundo, dizia ele. E tão importante quanto isso, ou mais ou menos do que isso,
dependendo de cada visão ou pensamento, o ser humano acabou de chegar à lua e
irá logo mais a outros planetas, dizia ele.
A maioria dos amigos ria, poucos o
levavam a sério nesses assuntos. Nestas conversas e naquele lugar, Liodoro não
tinha muita credibilidade, porém era ouvido como um sonhador, fabricante de
sonhos e ilusões em que poucos acreditavam, porque não aprenderam a sonhar. Afinal,
era dura a realidade para essa gente, onde a maioria ainda parecia viver na
caverna do mito de Platão. Embora haja apenas uma geração, era um tempo
perigoso em que inocentes, mesmo letrados, eram internados por profissionais da
saúde e pela justiça como loucos ou assassinos nos hospícios do país. Tal era o
atraso cultural de um povo que ainda não compreendia por qual futuro lutar, ou
que atitudes tomar na busca pela evolução. Assim, não era exagero pensar que Liodoro
também necessitava estar lá, no fundo de um hospício. Porém, agora, sabendo das
necessidades do amigo JJ Bastos, falava de coisas simples, mais compreensíveis
para todos, como os avanços da medicina nos países evoluídos, que juntamente
com a farmacologia e as novas tecnologias, em pouco tempo salvaria milhões de
vidas. As idades cronológicas de cada indivíduo seriam ampliadas em muitos
anos. Se antes eram de trinta ou quarenta ou cinquenta, no futuro chegarão a
noventa, cem e muito mais, sempre mais anos, de acordo com a evolução da
inteligência humana e dos novos conhecimentos. Eliodoro Tomás da Silva e Silveira,
como gostava de dizer seu nome, assim completo, não era pouca coisa, pensava
ele mesmo, orgulhoso, cheio de autoestima.
08
Enquanto ele falava, na sala das mulheres a
conversa também corria animada. Dona Corina, coroa de mais ou menos quarenta e
cinco anos, a mais informada com as fofocas da cidade, estava contando a última
novidade, quentinha como dizia ela. E ainda arrematava: — Vocês podem
acreditar, essa é a mais pura verdade, me garantiu quem me contou, pessoa da
mais alta confiança. Contudo, quem em
geral lhe municiava de informações tão quentinhas como dizia ela, soube-se com
o tempo, era o novo padre. Este chegara à cidade havia apenas seis meses, mas
já se inteirara de tudo. Grande irresponsável, depois fugiu e se escondeu em um
mosteiro da capital mineira para não ser preso, por abusar de menores e porque
gostava que os menores abusassem dele. Ele adorava conversar com ela na
sacristia, e ela adorava estar sozinha com ele, ouvindo as últimas quentinhas
da cidade e dos paroquianos. E dona Corina falou: — A mulher do prefeito, a
Regiane, está saindo com o vice. E a mulher do vice-prefeito, a Luciana, está
saindo com o prefeito!!!! A notícia caiu como uma bomba. Porém, a prima de uma
das citadas ficou calada. Pareceu não se impressionar com o fato, o que foi
interpretado pelas outras como se já soubesse, o que mais esquentou e avivou a fofoca. Era coisa antiga como se
descobriu com o tempo. Tudo se esclareceu depois de terminado o mandato de
ambos. Eles anularam e oficializaram os respectivos divórcios e se casaram cada
um com a mulher do outro, como todos já comentavam. E explicaram aos amigos
mais próximos que descobriram que os respectivos matrimônios haviam sido um
equívoco e somente depois, quando começaram a sair juntos os quatro, perceberam
o engano; entenderam que cada uma delas e deles haviam encontrado o verdadeiro
amor.
Entretanto, o jovem Francisco José saía
com o avô Liodoro depois de se despedir dos presentes. Valdivino, grande
comerciante e um dos médiuns do centro espírita da cidade, resolveu
acompanhá-los. Lá fora, depois de uma conversa sobre o estado de saúde do amigo
enfermo, este disse: — Mas ele ainda pode melhorar. Esta semana, a qualquer
hora, quem vai acompanhar a esposa Manuela no outro mundo é Ziquinha da
Ana. Eu a vi abraçando-o durante todo o
tempo em que estive lá e observava o ambiente.
Francisco
José ouviu aquilo e achou graça, mas só no pensamento. Como agnóstico, não se
preocupava minimamente com a metafísica ou qualquer coisa que não tivesse
comprovação científica ou lógica. Admitia somente os conhecimentos científicos
e os adquiridos pelo que considerava vindos da razão e da inteligência, e
evitava qualquer conclusão não demonstrada também na matemática ou
materialmente. Mas Valdivino ainda completou: — Se assim não for, não serei um
médium de confiança. Podem esperar.
O
jovem não disse nada. Tinha sua visão de mundo e não gostava de discussões religiosas
nem desrespeitar as crenças alheias. Afinal, pensava ele, religião é ainda hoje
indispensável à maioria, como na filosofia grega a mitologia era necessária ao
pensamento humano. Assim, as crenças ou religiões como as utopias, fazem parte
de qualquer cultura e parecem ser partes necessárias à evolução humana. Mas a
ética, pensava ele, deveria ser a verdadeira religião. Contudo, as palavras de
Valdivino o deixaram com as orelhas abertas e em pé; gostaria de saber o
resultado de tão importante previsão ou profecia. E
09
agora,
talvez como nunca antes, poderia aproveitar para tirar alguma conclusão dos
conhecimentos incognoscíveis.
Advogado, queria ser também um escritor
reconhecido e assim, fugia dos temas que lhe pareciam arredios, sem explicação
em seu modo de ver ou pensar, ou que não tivesse a comprovação que sua
inteligência desperta exigia. Porém, tinha muitas dúvidas que gostaria de
verem comprovadas e saber da veracidade ou não. Assim, esta notícia do médium
lhe caiu muito bem, quase como uma futura resposta a uma pergunta que poderia
ter uma explicação, embora subjetiva, que sempre desejara saber: Existe vida
além da morte?
Enquanto isso, as outras visitas ao
enfermo se despediam, desejando-lhe votos de boas melhoras. E quase sozinho
naquela grande casa, vivendo apenas com a filha solteirona, J J Bastos começou
a pensar, como se estivesse fazendo um inventário de sua vida. O que foi bom, o
que foi ruim? Não sabia responder entre tantas que eram as coisas que havia
vivido, embora nunca soubesse o sentido da sua vida. Mas e que? O que é a
felicidade ou a infelicidade neste mundo individualista e complicado, cada vez
mais tecnológico e menos humanista? Ou talvez nem assim fosse, dependendo do
ponto de vista de cada um. Porque aqueles que têm a mínima consciência do
viver, sabem que tudo é pura ilusão, que tudo pode ser apenas um sonho para
alguns ou um pesadelo para outros e muitos.
O
que mais o torturava era a lembrança de Gabriela. Sempre se sentiu culpado por sua
morte, sempre pensando que fosse mesmo um suicídio, embora não houvesse nenhuma
comprovação. Pensava também no poder de um homem rico como ele, vivendo em uma terra
de pobreza indigna, e nunca houvesse se preocupado com isso, sendo na maioria
das vezes omisso ou a parte vantajosa do sistema social vigente. Agora, como um
enxame de abelhas, via seus pensamentos lhe acusar por tudo que podia ter
feito, e não fez, ou que simplesmente deixou de fazer, devido à sua inconsciência
da natureza das coisas, da sua vida enfim. No entanto, repensava ele, agora no
final da vida, que poderia fazer para redimir-se? Sabia muito bem que seu fim
estava cada vez mais próximo, que seus poucos dias estavam contados e nada ou
alguma coisa poderia fazer para mudar seu destino. Ou algo poderia ser feito
pelo menos para aliviar suas dores internas, pelo menos aliviar o sofrimento de
sua consciência, ou su’alma? Porque suas dores do corpo se mesclavam às dores
da alma, e juntos, os tormentos se tornavam ainda mais dilacerantes. Lembrou-se
da esposa e dos muitos amigos que já se foram; agora com certeza era sua vez.
Seu sofrimento neste primeiro dia, em sua
casa, depois de voltar do hospital, foi em parte tranqüilo, devido às visitas
dos amigos. Mas depois, ao estar só, como será enfrentar aquela tempestade,
aquele montão de pensamentos a lhe trazer tantas condenações? já imaginava ele construindo
pontes no futuro, adiantadamente, pontes que talvez nunca atravessaria pois
quase com certeza nunca chegaria lá. E pensando assim, adormeceu, com a
esperança de que outros dias ainda viriam, pra recordar tudo de novo, tudo que
foi bom ou ruim em sua vida. E rezar pra se aliviar. Se perdoar também, se
conseguir,
10
nem
que seja com “reza braba”, como lhe dizia seu compadre Zezim da Venda.
Entretanto, Francisco José ainda caminhava
para casa, entre seu avô Liodoro e o médium Valdivino, que seguia a mesma
direção. Porém, o existir, o pensar algo sobre a vida e a morte dos homens,
como falara o médium, perturbava o jovem escritor. — Porque existiu ou ainda existe a
genialidade de alguns poucos que passaram e passam pela terra, deixando um
rastro de inteligência e de cultura fantástica para a evolução de outros,
enquanto outros nem desejam conhecer? pensava ele. Porque cientistas, artistas
das mais variadas artes foram em tempos idos tão inteligentes e criativos? Porque estadistas e líderes verdadeiros souberam
governar com justiça e deixaram exemplos de grandes ideais, como as construções
materiais e as culturais, enquanto outros nem tomam conhecimento? Enfim, são muitos os sábios mortos e vivos deste
mundo para lembrar e contar, pensava ele.
Logo passam em frente da casa de
Valdivino, que se despede e entra, enquanto a filha Marina continua no portão,
conversando com uma vizinha. Francisco José não deixa de dar uma paradinha ali,
pra gozar um dedo de prosa com uma das moças mais bonita da cidade. A amiga se
despede como adivinhando algo de misterioso e secreto entre os dois, que embora
ainda não se declararam, estão como dois pombinhos a conquistar um ao outro.
Começaram a falar do tempo, de uma noite enluarada como aquela, tão linda que,
olhando para o céu, daria vontade de escrever poesias, ou cantar nem que fosse
por dentro, pra quem não sabe cantar por fora. Marina pergunta: — Você gosta de
cantar por dentro? — Eu adoro cantar por dentro e por fora. Sempre canto por
fora quando estou no banheiro — e deu uma boa risada! — E você? pergunta ele. —
Ahhh!!!, não tenho este maravilhoso dom de cantar por fora. Então o jeito é
cantar por dentro, coisa que faço muitas vezes, quando estou contente, responde
ela.
Havia muito tempo ele desejava levar a
conversa para o lado dos sentimentos, onde nele já nascia uma vontade grande de
ficar mais perto dela. Mas não sabia por onde nem como começar, não imaginava o
que ela poderia mais gostar. Então
começou a pensar o que seria, para ganhar tempo. Pensou que, com calma e com um
pouco de sorte, poderia adivinhar; iria começar a falar do tempo, daquele
começo de noite de céu enluarado, muitas estrelas. — Tem ido ao cinema? Nem sei
o que está passando por estes dias. Tenho muito trabalho e o tempo restante
estou a escrever um conto, meu segundo trabalho de literatura. — Ela se
interessou e respondeu perguntando: — Não tenho ido ao cinema, estou estudando
para as provas da faculdade, e nos momentos de lazer, gosto da leitura. Estou
lendo Lima Barreto, um dos meus escritores preferidos. Mas afinal, está escrevendo sobre o que? Posso
saber? perguntou ela num lindo sorriso,
curiosa. Ele olhou-a bem fundo nos olhos, lindos olhos negros, porém ela não
resistiu a tão longa mirada. Desviou o olhar para o céu, depois pra baixo, como
a fugir de tão profundo olhar. Ele continuou olhando seus olhos e disse: — Não
gostaria de lhe dizer agora, mas prometo que lhe mostrarei em primeira mão,
quando terminar, pois também desejo sua opinião
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de
inteligente e grande leitora. Pode ser? — Claro, será um prazer imenso para mim.
Gosto de todos os temas literários porque acho que, o mais importante é a forma
de escrever, de contar a história, a maneira como o autor se comunica com o
leitor, como se manipula a vontade de continuar lendo uma história qualquer. O
que você acha? e espera a resposta depois de uma pausa que não vem. De novo ele
a olha profundamente, bem no fundo dos olhos como da primeira vez. Ela agora
lhe resiste a mirada e ele, sem pestanejar, responde: — Tem razão, eu também
acho que é assim. E talvez por isso
mesmo, seja tão difícil a carreira de escrevedor. Porque não basta escrever
bem, é necessário saber comunicar com o leitor, saber captar a curiosidade
mental, a atenção que toda leitura exige. Por isso a necessidade do texto ser limpo,
resumido, para ser agradável.
Ela
concordou e continuou, tentando mudar de assunto: — Você pretende continuar
vivendo nesta pequena cidade, ou deseja voltar pra capital, onde tem boas
relações e seria mais fácil para a carreira que pretende seguir, pra divulgar
seus trabalhos? Não lhe parece melhor? perguntou ela como a querer saber um
pouquinho da sua vida. Ele lhe dá outra mirada, agora com os olhos a brilhar: —
Gosto mais do interior. Aqui, além de muitos familiares, tenho muitos amigos e
a vida se me torna melhor, não mais fácil. Além de lindas amigas, lógico—
termina com um sorriso disfarçado. Ela entende, corresponde ao olhar e também
disfarça, olhando o firmamento cheio de luz. Ele criou coragem, empurrou-a
carinhosamente para dentro do portão como a fugir do ângulo de visão da rua, pegou
no queixinho dela e lhe disse: — Você é muito linda e gosto do seu jeito de ser,
sempre gostei. Tenho que ir-me agora, mas amanhã quero vê-la aqui no portão, às
oito horas. Posso? Ela ainda muito tímida, ou querendo parecer tímida, olhou
pra baixo sorrindo, e sem coragem de fitá-lo, respondeu: — Claro. Estarei
esperando. — Antes de seguir seu caminho, porém, ele criou mais coragem, a
coragem que precisava, que desejava naquele momento. Depois de conversar e
pensar na morte até chegar ali, queria agora sentir a vida representada pela linda
jovem, representada pelo prazer, ainda um mínimo de prazer. Sua mão que a pegava
pelo queixo ficou firme, como a segurá-la. E pelo mesmo queixo que ele a
pegava, puxou-a e continuou firme como a prendê-la com seus dedos, carinhosamente. A outra mão, na nuca, atraindo-a e
acariciando-lhe o lindo cabelo. Sua boca tocou a dela, sua língua penetrou-lhe
quase a lhe tocar a garganta, tal era o desejo de seu prazer, de quase
possuí-la. Sua língua agora úmida seguiu um movimento de vai-e-vem, mais ou
menos cinco vezes, até que ela deu sinais de uma leve tosse, mais de ansiedade
que desagrado, ou de pura surpresa, sentiu ele. Ele esmoreceu, flexível e
carinhosamente, deixando que se desgarrara dela sua língua e sua boca. Depois
sorriram e ele desapareceu na escuridão ainda disforme daquela noite que
começava e seguiu pra casa. Pensava em continuar a história que havia começado
e não sabia quando iria terminar. Era seu primeiro livro de contos. Queria
contar como era viver numa pequena cidade; a sua cidade com sua gente.
Entra
em casa, eufórico, pensando ainda em Marina, no encontro da próxima noite, nos
próximos beijos que seriam muito mais intensos. Ver Marina outra
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vez
e muitas outras era o que mais desejava. Passa pelo corredor e vê pela porta
entreaberta da biblioteca, o avô que está sentado, lendo um livro sobre a
grande mesa. Segue para o quarto e senta-se à sua escrivaninha; escreve na
pequena máquina algumas frases que já trazia formadas na memória. De repente,
pouco depois, alguns minutos apenas, ouve um tiro e o baque de um corpo que
cai. Corre até a biblioteca onde o avô se esvai em sangue. Está o chão vermelho,
pelo líquido que lhe sai pelo ouvido e pela boca. Um intenso golpe interno mesclado
com um horrível susto lhe paralisa. Não sabe o que fazer a não ser se abaixar,
sentar-se no piso e abraçar o avô, colocar sua cabeça em seu colo. Começa a
chorar, mas as lágrimas não vem. Sente-se como se o mundo lhe tivesse caído em
cima e o solo se afastasse de seus pés. Está ali na casa grande, imensa, agora
sozinho. Somente ele e o morto com uma arma na mão; inerte. A servente já foi
embora. Os vizinhos ouvem o barulho e começam a chegar, perguntando, assustados.
De repente a sala e a biblioteca estão cheias de gente.
Ele
ficou mudo, a pensar, não tinha compreendido nada; porque aquela tragédia?
Somente meses depois, lembrou-se do que o avô
lhe dissera dias antes daquela fatídica noite. Que estava difícil sobrelevar a
vida com as doenças que lhe traziam tantas dores; as dificuldades de compreender
e administrar psicologicamente seus problemas, irresoluções de sua vida que
chegava ao fim. Ter de esperar, ter de ficar à espera da finitude não lhe
trazia nenhuma inspiração, disse ele com ironia. Talvez, pensou Francisco Jose,
a visita ao amigo J. J. Bastos,ver e sentir o início do seu fim, o houvesse impactado em demasia e desequilibrado
seu já inconformado modo de pensar. E de viver.
Coromandel-MG Setembro
de 2015
ENTRE A MEMÓRIA E O TEMPO
CRÔNICA
Interessante
é o exercício da memória, que através do pensamento, vai nos levando a outros
tempos, tanto àqueles que nos foram bem vividos, quanto outros que gostaríamos
de esquecer. Tal se passa com esse escrevedor ao passar em frente ao velho
cinema, que foi o marco principal dos acontecimentos desta cidade até o advento
da nova tecnologia, que nos deu primeiramente o videocassete, mudando assim de
repente toda a história da cinematografia e radicalmente a comunicação visual.
O cinema,
ou o Cine União, atraía todos os habitantes da velha Coromandel, não só pelos
filmes que passava, mas, principalmente, pela sua importante centralidade,
tanto física quanto social, chamando a atenção de todos os moradores que
houvesse na região. A pequena praça em frente parece não contar muito, pois
além de pequena, sempre foi descuidada pela administração pública municipal.
A primeira
coisa a ser feita ao passar por ali, era ver através da grande porta de ferro
entrelaçado, os enormes cartazes que anunciavam os filmes da noite ou da matiné
e a programação da semana. No meu caso, era mais uma questão de esperança que
nunca morria. Porque os filmes eram medíocres e quase sempre do mesmo tema. Eu
era um grande amante dessa grande arte e já sabia, apesar da idade, escolher
uma boa história, uma história com conteúdo artístico e cultural, que pudesse
acrescentar algo positivo e duradouro para levar comigo, somando com outras
exigências para formar assim, minha futura bagagem psicológica. Alguns dos principais
que me recordo eram os filmes de luta livre de um tal de Santo, filmografia
medíocre, se me recordo bem era feita no México, onde o herói mascarado era
sempre o vencedor do ringue, lugar onde sempre se passava a hora e meia da
fita, sem cenário exterior; somente ali, no ringue, o espaço da luta. De vez em
quando, a esperança se tornava realidade e um bom filme chegava para alegrar
minha infância.
À noite,
nos fins de semana, as moças da cidade faziam o seu vai-e-vem ali em frente,
entre a pracinha e o cine, enquanto os rapazes ficavam a ver. Era assim que os
olhares se cruzavam em emocionantes flertes, que podiam desaguar em namoros,
noivados; em muitos casamentos.
Estas
lembranças ainda me são muito fortes, embora venham da minha adolescência. Mas
eu era um atento observador dos fatos que já sonhava em ser adulto, para poder
participar mais ativamente daquela festa, das tão poucas festas que havia.
Porém, era ainda uma época em que o máximo permitido era pegar nas mãos e os
beijos mais quentes ficavam pra muito tempo depois.
Na parte
mais alta do edifício ficavam dois potentes altofalantes, onde o que mais se
ouvia eram músicas orquestradas, lindas por sinal, mas quase sempre as mesmas.
Logo,
chegando à idade adulta, parti para longe, seguindo os passos de muitos jovens
como eu, em direção à universidade. Hoje, cinquentão, não me pergunto se foi
bom ou ruim, mas gosto de lembrar as trocas de gibis com os amiguinhos ali em
frente, naquela pracinha descuidada, onde o Zorro, Fantasma, Pato Donald e
muitos outros heróis me incentivaram a ler, a estudar e a viajar pelo mundo
dentro de mim mesmo.
E depois,
já adulto, fiquei a recordar as linhas dos mapas que me ensinaram as geografias
e as histórias, por onde desconhecidos e interessantíssimos caminhos me
levaram. Felizmente. Porque a televisão
ainda não havia chegado para idiotizar minha infância.
Que
coisa! Quem consegue olvidar os tempos de uma memória gravada lá longe, que
parece ainda fresca e fortemente guardada em um aconchegante lugar do
passado? J. Borges
EU? CRÔNICA
Recebi
e-mail de um amigo dizendo que estou ficando maluco. Além de me acusar de nunca
visitá-lo, diz também que não lhe dou muita atenção quando nos encontramos em
algum lugar, como acontece em diversas oportunidades. Disse que só penso em
comunicar-me passando e-mails ou falar no celular para os rápidos ou longos
recados, mesmo quando estou na garagem e preciso falar com alguém dentro de
casa. Também me jogou na cara, isso é, no e-mail, que mesmo com os vizinhos e
até com os de casa eu faço a mesma coisa, como já lhe comentaram. E que quase
sempre, pelas manhãs, ligo o computador antes de tomar o café e assim mesmo
antes de comer, começo a ver o que a máquina tem a me dizer.
Falou
tanta besteira o meu amigo, que ainda estou ressentido. Continuou dizendo que
quando não estou fazendo nada, estou fazendo muito, ocupado. Vou ver os
arquivos de piadas que encaminham para mim e que ao ler, eu fico a rir sozinho
feito um doido em frente ao monitor; que depois as reencaminho para os meus
contatos. E pior. Disse na cara dura, ou melhor, escreveu, que todas as piadas
que conheço eu vi nos referidos e-mails. Disse também que minha invocação com
tecnologia vai me deixar cada vez mais alienado, e que quando parar meu
computador, copiadora, scanner, internet, web cam, aparelho DVD, Blue-Ray, HDTV,
Net Book, câmara digital, celular, Ipod, Mp3 e Mp4, Pen Drive etc. etc., será
como se fosse meu próprio coração, nem que seja só por um momento. Que saio
para trabalhar com o dia clareando e volto pra casa quando a noite já começou,
querendo dizer-me com isso pra sentir mais a vida que nem percebo passar; que
ela se me esvai tal qual meus pensamentos que não param de voar, preocupado com
tanta coisa boba destes tempos modernos.
Depois
de um pouquinho chateado com tanta verdade, começo a ficar contente por meu
amigo ter tido pelo menos aquela simpatia de escrever-me algo, coisa tão rara
hoje em dia. Porque nunca recebo longos textos de e-mails, a não ser os encaminhados
pelos meus contatos, a maioria imaginários, isso é, virtuais. Esses e-mails em
geral são produzidos por gente desconhecida que trabalha em tecnologia e são
pagas para fazê-los. Tudo bem, nada contra, mas não é o mesmo que receber de
gente de carne e osso, que se conhece. Bem, para terminar a história, comecei a
desconfiar que não foi meu amigo que escreveu tanta loucura sobre mim. Como a
grande maioria do povo deste país, ele detesta ler, quanto mais escrever!
Verifico
de novo o cabeçalho do e-mail e vejo que ele apenas o encaminhou, como todos
fazemos com aqueles que achamos interessantes e gostamos, e outros que nem
lemos, simplesmente passamos pra frente. Nunca escrevemos nada, nem uma
mensagem de bom dia, boa tarde, boa noite, ou pelo menos algumas palavrinhas
perguntando: — Como vai você?
Pra
terminar, voltei a ficar ressentido com meu amigo. Não é bem ressentido a
palavra, mas um pouco chateado. Pessoa insensível, individualista, preocupada
somente com o pouco tempo e os seus afazeres, como os seres humanos modernos,
os que vivemos neste século dos solitários. E depois, me envia um e-mail e me
chama de maluco! Será que sou mesmo? Mas somente eu? J. borges
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